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Por cima do ombro

julho 2026 · Crônica

No metrô lotado eu faço o que todo mundo faz e ninguém confessa: leio a tela do vizinho. Ontem foi a da menina espremida contra mim, a mão dela, a minha e a de mais quatro pessoas empilhadas no mesmo corrimão.

Ela escrevia uma mensagem — pelo "prezado" lá em cima, era pro chefe. Digitava rápido, do jeito que a gente digita em pé num vagão que solavanca: dedão grosso demais pra tela pequena, palavra trocada, um "naõ" no lugar do "não". Tava tudo ali, o recado inteiro, torto e pronto pra mandar.

Aí ela parou. Selecionou tudo e apertou aquele botão de estrelinha que promete melhorar. A tela pensou um segundo e devolveu o mesmo recado sem a menina dentro: vírgula no lugar certo, cordialidade de circular de RH, um "permaneço à disposição" que ninguém nunca disse em pé no metrô. Ela mandou essa.

Fiquei com pena do "naõ" trocado. Ele tinha pressa, tinha um vagão sacudindo, tinha uma pessoa de carne com o dedo grande demais. Era a coisa mais honesta que ia sair daquele telefone no dia inteiro, e não chegou em ninguém.

Foi quando reparei no vidro da porta. O túnel tinha escurecido a janela e virado ela num espelho, e a gente todo tava ali refletido: amassados, suados, segurando sono e sacola, ninguém com "permaneço à disposição" na cara. O vagão inteiro era uma gambiarra que deu certo — feio, apertado, todo mundo funcionando na raça.

Eu ia fechar essa crônica com uma frase redonda. Cheguei a apertar a estrelinha. Ela me deu uma ótima. Apaguei — e deixei o "naõ" no lugar, torto, do jeito que sai de quem tá escrevendo em pé.