A vitrine de doces
agosto 2026 · Crônica
A vitrine de doces da padaria ainda me faz voltar no tempo e virar menino de novo.
Faz muitos anos que eu sei que a maior parte daquilo ali não é sequer saborosa. Chocolate que não é chocolate, uma pasta branca açucarada demais, um recheio sem nome, às vezes junto de um brinquedo que quebra antes mesmo da gente chegar em casa. Sei disso do jeito que se sabe uma coisa óbvia, sem precisar pensar. E mesmo assim as cores e os desenhos me puxam toda vez como se eu ainda não soubesse.
É legal ficar vendo o tempo passar ali. Ao longo dos anos, alguns personagens vão cedendo lugar a outros. Onde tinha o personagem com que eu passava tardes inteiras brincando, hoje tem o desenho que os filhos dos meus amigos assistem — o que já diz bastante sobre onde eu estou nessa história.
Nos anos noventa, entre mim e aquela prateleira o único obstáculo era meu pai. Ele olhava, acho que fazia contas na cabeça, e dizia que hoje não. Geralmente não era um não bravo. Era um não de quem já tinha planejado o quanto ia gastar antes de sair de casa. Eu voltava com cara de quem não comeu e não gostou, e ele passava o resto da compra tentando me convencer de que eu não ia nem gostar daquilo.
Há uns dez anos, quando comecei a ganhar um dinheiro legal, fui tomar um café na padaria perto de casa e dei de cara com aqueles mesmos doces. Alguns ainda traziam os personagens da minha época. Comprei. Comprei mais de um, inclusive, que é o tipo de coisa que a gente faz quando quer provar alguma coisa pra si mesmo.
Na primeira mordida, o instinto básico seria o arrependimento. Era ruim mesmo. Mas eu fiquei feliz.
Fiquei feliz porque não era doce o que eu estava comendo.
Era um passeio. E o passeio era longo: a vitrine, o pedido, a conta de cabeça, a justificativa, o não que não era bravo. Tudo aquilo veio junto, numa mordida só, por causa de um doce que não era doce. Quando chegou a hora de pagar e eu vi o preço, a graça ficou completa — porque em tese aquilo era um dinheiro mal gasto, e na prática tinha sido a viagem mais barata que eu já fiz.
A gente costuma achar que compra coisas. Quase nunca compra. Compra o que a coisa faz com a gente.
E aqui é onde eu deveria dizer que o importante é a memória, que dinheiro não compra o passado, essas frases que ficam bem numa parede de cozinha. Só que não é bem isso. Dinheiro não compra o passado, mas compra o passeio — e não ter essa chance, quando se é criança e o adulto está fazendo a conta na cabeça, também é uma coisa que a gente aprende e leva junto. Meu pai me negava o doce e me dava a vitrine. Levei uns trinta anos pra entender qual dos dois era o presente.
Ainda hoje, toda padaria em que eu entro, eu vou atrás da vitrine. Passo os olhos com calma em cada um daqueles doces, me pergunto qual será o pior deles, procuro um personagem que me reconheça. Às vezes acho, às vezes não.
E não compro. Afinal, o gostoso mesmo é a vitrine.