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Cheiro de feira

agosto 2026 · Crônica

O cheiro de feira.

Pode ser do gelo derretido misturado com o peixe fresco à mostra, do óleo incansável fritando um pastel atrás do outro, das frutas da estação que jogam seu perfume enquanto os vendedores oferecem provinhas singelas pra te mostrar que o gosto também vale. Pode ser das sacas de tempero entreabertas, enquanto a vendedora se desdobra em pegar o troco com uma mão, manipular a pá e o saquinho com a outra e ainda desviar dos garotos que atravessam correndo com caixas de fruta.

Reparo no cachorro da dona Lúcia, que a cada fungada parece encontrar um universo diferente. Ela tenta — sem sucesso — impedir que ele coma o que não deve. Mas é muita informação.

Ainda tem utensílio doméstico, arreador de panela velha, roupa nova, a turma das compotas e dos doces, amolação de faca. Amolação, aliás, é o que não falta.

A feira se instala na calada da noite, se debruça pela manhã e pelo começo da tarde, e deixa seu rastro pelo menos até o fim do dia.

Ela se coloca no meio do bairro e é impossível ignorá-la.

Só quem já parou o carro na rua da feira e não se deu conta sabe. Você desce com a chave na mão e encontra uma barraca de verduras montada quase em cima do seu carro, e não tem a quem reclamar, a feira chegou antes — ainda de madrugada, enquanto você dormia. É uma das únicas coisas que ainda fazem o carro dar lugar pra gente nessa cidade.

Mas a feira é o lugar dos encontros.

As carolas e os cristãos saem das suas missas matinais direto para as compras e para o pastel com caldo de cana — às vezes pra comprar pra família toda. A missa continua ali, em outro tom. A mesma gente, os mesmos cumprimentos, a mesma pergunta sobre a tia que operou o joelho, só que agora com sacola na mão e sem ninguém mandando fazer silêncio.

Você encontra o vizinho que só vê na feira. O cara que vende banana e já sabe que você só compra fruta pra não ir só pra comer pastel. A mulher que pergunta pelo seu pai toda semana e que você não faz ideia de quem seja.

Meu pai empurrava o carrinho e me deixava escolher uma fruta pra comer no caminho. Eu escolhia sempre a mesma - carambola, ou, à época, “a fruta da estrelinha”.

No fim da tarde os caminhões levam as barracas embora e a rua volta a ser rua. Ficam as cascas de laranja, o papelão molhado, uma folha de couve pisada no asfalto. E fica o cheiro, que é sempre o último a ir embora.

Até semana que vem.