Os torcedores
agosto 2026 · Crônica
Nas Laranjeiras, no começo do século passado, as mulheres costumavam ir aos jogos futebol de luvas. Nos momentos mais acirrados, tiravam as luvas e as torciam nas mãos. Um ilustre acadêmico que frequentava as mesmas arquibancadas, viu aquilo e escreveu a frase que pegou: enquanto jogam, torcem.
Uma sorte que tenha sido esse o símbolo escolhido pra nomear os mais fanáticos. Imagina se tivessem se apegado aos roedores de unha. Hoje eu seria roedor do São Paulo Futebol Clube.
Sou fascinado por etimologia desde que ganhei um livro que tratava do tema. Não é um fascínio que decora origem de palavra pra falar a respeito. É outra coisa. Tem alguma coisa dentro dessas explicações que mostra como a gente dá significado às palavras e aos atos que vêm pendurados nelas. A palavra chega inteira na sua boca e você usa ela a vida toda sem desconfiar que ela já foi outra coisa.
Bar, por exemplo.
Pensa no boteco: mesa na calçada, roda de samba, papo furado pra cá e pra lá. É talvez o lugar mais democrático que a cidade ainda oferece — ali o chefe e funcionário dividem o mesmo lugar e ninguém cobra nada de ninguém. Pois bem: bar vem do latim barra, que quer dizer, em tradução livre, obstáculo. O termo viajou, virou bar no inglês e barre no francês, e servia pra indicar o balcão comprido que separava o cliente do estoque de bebida.
O lugar mais acolhedor que eu conheço é, na origem, um muro.
Aliás, curioso é outra palavra curiosa. Vem do latim curiosus, que significava cuidadoso — parente de cura, cuidado. Só que o curioso quase nunca é cuidadoso. O curioso enfia o dedo na tomada, abre a gaveta dos outros, lê a mensagem por cima do ombro no vagão do metrô. E o cuidadoso, esse é o sujeito dotado de zelo — mas zelo, lá atrás, queria dizer forte emoção, ardor, inveja. Exatamente o contrário do que a gente imagina hoje quando fala de zelo. Não à toa: ciúme vem do latim zelumen, que vem de zelus, que vem do grego zêlos.
Quer dizer que o zelo do pai que confere se o filho está dormindo em segurança e o ciúme do sujeito que confere o celular da namorada saíram da mesma palavra. Tomaram rumos diferentes e nunca mais se falaram.
Algo se perde e muito se ganha no meio do caminho das palavras.
É por isso que etimologia não é curiosidade de almanaque. É uma espécie de arqueologia. Você levanta o tapete da própria fala e encontra as camadas: um pedaço de Roma, um pedaço da Grécia, um pedaço de arquibancada nos anos 20. A gente conversa em cima de um cemitério de significados que nascem e renascem todos os dias.
E aqui eu preciso confessar o golpe.
Este texto é uma pretensa crônica. E crônica vem de chronos, tempo. É, em regra, sobre o tempo em que se escreve.
Só que eu passei o texto inteiro viajando no tempo — pras luvas de Laranjeiras, pro balcão-muro dos pubs inglês e pro ciúme que era cuidado. Se eu fico nesse vai e vem, isso aqui já não é bem uma crônica. É uma acrônica, ou coisa que o valha: um texto sem tempo próprio, escrito com palavras que também não têm.
Talvez um dia nada do que eu tenha escrito aqui tenha o mesmo significado que eu dei às palavras eleitas para aqui estarem. Mas escrever crônica é torcer o tempo na mão feito luva, com a esperança boba de que aquilo mude alguma coisa.