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O pão.

agosto 2026 · Crônica

O saco de papel precisa ficar entreaberto pra não estragar o pão quentinho.

Isso é ciência empírica. Ninguém ensinou, mas quem já foi à padaria na hora certa sabe.

Faz umas semanas que o bom pãozinho francês alugou um triplex na minha cabeça. Era só um desejo e virou outra coisa.

Porque o pão tem cenas. Ele é protagonista de tantas cenas que a gente já parou de dar o seu devido valor.

O pão tão quente que a manteiga não precisa ser espalhada — ela se derrete sozinha. O pão rasgado com a mão, grosseiramente, e mergulhado no copo de café com leite adoçado muito além da conta e fica com aquela película de gordura na superfície. Ele volta pingando e tem que chegar à boca antes de desmanchar. Isso é sabedoria.

E o pão cascudo que desce com uma ponta fazendo rapel pela garganta e deixa ferimentos leves no caminho?

Cada um com suas dores e delícias.

Tem o decadente pão molhado, xoxo, capenga, molenga, murcho.

Mas todos tem seus rituais de ressurreição: o pão velho vira torrada, que quando murcha vira farinha, que vira qualquer outra coisa. Poucos alimentos têm um segundo ato tão digno quanto o primeiro. O pão tem infinitos.

E ele aceita tudo. Mortadela, ovo, queijo derretido na chapa, requeijão na entrada ou na saída. Esses dias vi alguém dizer que gosta de sanduíche de bolo. Pão recheado com uma fatia de bolo. Minha boca virou um açude só de pensar.

Um alimento que aceita ser recheado de qualquer coisa é um alimento generoso. E generosidade, por aqui, quase sempre é confundida com falta de valor.

Foi o que fizeram com ele. Em algum momento o conservadorismo gastronômico enquadrou o pão e decidiu que o padrão, o normal, o oficial, seria o "de forma". Logo ele, tão galera. Botaram o pão num retângulo, tiraram a casca, embalaram em plástico e continuaram chamando aquilo de pão.

A igreja fez pior. Reduziu o pão a hóstia — aquela coisa insossa, sem cheiro, sem miolo, indigna de representar o que representa. Imagina se o chocolate aceitaria ser representado por aquele guarda-chuvinha de gordura hidrogenada. Ninguém perguntou ao pão se ele topava tamanha ingratidão.

Um alimento que atravessou a ascensão e a queda de impérios. Passou e foi consagrado pelas mãos de Cristo. Mas só foi se canonizar mesmo nas chapas das padarias paulistanas, cuidando bem sem olhar a quem - dos trabalhadores aos boêmios e vagabundos encerrando suas noites-madrugadas no balcão.

Num passado não muito distante, "pão" era elogio de beleza. "Fulano é um pão." Que baita elogio — chamar gente bonita de algo tão delicioso.

E ainda tem o resto do mundo fingindo que inventou alguma coisa. Pizza é o quê, senão pão com coisa em cima? E a esfiha? Metade das iguarias celebradas mundo afora é pão com alguma coisa e um sotaque diferente.

Mas o que me pegou foi perceber que o pãozinho é a coisa mais básica que existe. É o domingo de manhã. É o acompanhamento da refeição sem graça - a sopa. É o que a gente come quando não está comemorando nada. É aquilo que ninguém chama de especial e que todo mundo tem alguma boa lembrança quando ouve a respeito.