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Mesa ao lado

julho 2026 · Crônica

— Não, Marcela, você não me disse que ontem era aniversário de casamento dos seus pais?
— Mas a gente tá junto há oito anos, Caio…
— E eu lá vou saber que dia que eles casaram?!

Esse é o meu tipo preferido de diálogo roubado da mesa ao lado. Aliás, ouvir história alheia é meu segundo passatempo preferido em qualquer bar ou restaurante. O primeiro? Inventar histórias para essas pessoas.

"Olha ali, será que aqueles dois são irmãos?" "Não, cara, eles tão de mãos dadas…" "Ué, agora chegou a polícia dos irmãos? Cadê a lei que proíbe o afeto físico entre irmãos? Ok, talvez sejam namorados, mas se são namorados tão juntos há, no máximo, quatro dates." "E se conheceram onde?" "Ah, isso aí tem cara de conhecidos do trabalho, tão saindo no sigilo." "Olha ali, os dois de mala. Quem sai de mala pra jantar às 21h?" "ALÔ COMPLIANCE!!!!!"

Do outro lado do salão, por exemplo: três homens, duas mulheres. Longe demais pra ouvir qualquer coisa — o que só melhora o exercício, porque sem áudio o roteiro é todo nosso.

"Dois casais e o irmão de alguém." "Irmão de quem?" "Da de verde. Olha ali: intimidade sem tensão sexual." "Não, cara. Aquilo é amigo recém-solteiro. Terminou o noivado e os casais se revezam pra ele não passar a quinta-feira sozinho." "Ele tá rindo demais pra quem terminou um noivado." "ALÔ POLÍCIA DO HUMOR!!!!!" "Repara na geometria da mesa: as mulheres de frente uma pra outra, os homens pros lados. Clube da Luluzinha, Clube do Bolinha. Que casal senta assim?" "Todo casal com mais de cinco anos. Casal novo senta grudado. Casal velho senta longe pra ter assunto no Uber de volta." "Então fechou: dois casais velhos e um agregado." "Ou um trisal e um casal…"

O mágico é que não tem resposta certa nem errada — é só um exercício de roteiros impossíveis com o puro suco de surrealismo. Enquanto isso, a mesa ao lado já resolveu o meu caso: homem sozinho, computador aberto entre o cesto de pão e a longneck pela metade, 21h39 de uma quinta-feira. Levou bolo e tá fingindo que trabalha ou foi demitido e não teve coragem de contar em casa. Deve tá escrevendo sobre a gente, aposto. Pela primeira vez na noite, alguém acertou.