A gente corre de quem?
agosto 2026 · Crônica
Moro em cima da Marginal Pinheiros.
Bem em cima mesmo, 12º andar, e de lá vejo que a cidade não para um segundo sequer. Três da manhã de uma quarta-feira e os carros passam. Pra onde vão? Não sei. Sempre imagino que quem sai de casa nesse horário vai pra muito longe ou não sabia que precisava estar ali naquele momento.
No último domingo acordei antes da luz, pouco antes das seis. Fui ao banheiro e, na volta, buscando um copo d'água, comecei a ouvir uma música alta cortada por uma infinidade de gritos ofegantes: "vamô!", "pra cima!", "bora galera!".
Cheguei na janela e vi um mar de gente tomando a pista expressa na contramão dos carros, todo mundo embebido nesse caldo do "bora galera".
Não me levem a mal: eu também sou corredor amador. Já me desafiei às provas longas, às meias-maratonas — às maratonas completas eu reservo só a admiração. Exigiriam de mim renúncias que não fazem muito sentido, tipo o cigarro que fumo enquanto escrevo isto aqui.
Fiquei ali alguns bons minutos, olhando, pensando nessa febre de corrida que se espalha pelas cidades. Não vou elaborar sobre os benefícios da corrida nem sobre como essas provas viraram um belo negócio para as prefeituras e para quem as organiza. O que me pegou foi outra coisa: de quem e para que a gente corre?
Tem quem corra atrás de boas fotos para os aplicativos de relacionamento. Da medalha que serve de álibi pro almoço farto do domingão. Do recorde pessoal pra confrontar aquele quase-amigo que te serve de comparação diária nas postagens do Instagram. Tem quem corra atrás do peso ideal, quem corra pelas paisagens, pela chance de correr onde só os carros têm vez.
Quando comecei a correr prova de rua, eu tinha um prazer íntimo em pegar os copos de água distribuídos no percurso e jogar na cabeça, pra me sentir um atleta olímpico por uma fração de segundo.
Existe um ridículo performático dentro de cada um.
Eu, por exemplo, faço essa confidência aqui e mesmo assim julgo todo mundo que aparece pra correr parecendo um ciborgue vindo direto de 2080: manguito refletivo, óculos espelhado, som que entra por vibração no osso do crânio, gel de eletrólito produzido na mais avançada indústria europeia. Talvez eu seja mais ridículo do que eles no meu sonho olímpico — mas ele só existe na minha cabeça. E agora neste texto.
E tem, claro, quem corra pelos gritos de "bora galera". Pela sensação de pertencimento, de estar vivendo "de verdade", de estar na rua gelada antes de o sol nascer e entender, pelo menos por um segundo, que pra sua foto aparecer lá no feed você precisa botar a cara na ventania.
Às nove da manhã a pista já era dos carros de novo. O mar de gente tinha virado entulho de sachês de gel de carboidrato e copos de água amassados nas margens da marginal. Espero que os muitos quilômetros corridos por cada um tenham cabido num stories tremido de nove segundos com música eletrônica de mau gosto no fundo. Eu vi tudo isso do 12º andar, no conforto do meu sofá. Acendi outro cigarro e pensei: "eu mesmo, corro de quem?"
Acho que corro de mim mesmo, da minha versão mais inerte, que não treina, não usa manguito, fuma e tem um pace melhor que o meu. E sabe onde ele é campeão? Nesse mesmo sofá.