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Já é...

janeiro 2026 · Crônica

4h55. Os olhos acordam antes do corpo, que protesta em silêncio, como quem já sabe que vai perder a discussão.

5h00. Café preto e um prato de macarrão por um minuto e meio no micro-ondas — um gesto de autocuidado conceitual, desses que só fazem sentido depois de explicados em voz alta.

5h05. O cheiro da macarronada ocupa o apartamento enquanto as cores escorrem pelos dedos, pelo rosto e por alguns brilhos que caem no chão como se fossem parte do plano.

5h10. O gosto do molho é rapidamente substituído por alguma bebida de procedência indefensável, enquanto o silêncio já foi expulso por gritos chamando um FARAÓ — ninguém sabe qual, mas todos respeitam.

5h15. Últimos retoques, pochetes e mochilas revisadas, aquele momento solene em que a gente confere tudo sabendo que vai perder alguma coisa.

5h20. Pela primeira vez no ano, o frio da manhã não vem com tristeza, vem com promessa: em poucas horas haverá suor, calor e uma falsa sensação de eternidade.

5h25. As primeiras aglomerações surgem dentro de mim — deveria mesmo ter ido ao banheiro antes de sair, mas agora já é tarde demais pra escolhas responsáveis.

5h30. Foliões madrugadores cruzam com a força de trabalho. Dois exércitos estranhos indo para batalhas diferentes, igualmente cansados e igualmente convencidos de que o outro lado enlouqueceu.

5h45. Acontece a tradicional pechincha brasileira: notas amassadas negociando duas — talvez três — latas geladas — ou não — de procedência tão duvidosa quanto a decisão de comprá-las.

5h50. A caminhada segue guiada pelo som; onde não há barulho, as cores assumem o comando, porque alguém precisa liderar.

5h55. O exército de mim comigo mesmo já virou um grupo improvisado, e a jornada deixa de ser individual sem que ninguém tenha combinado nada.

6h00. Os batuques e os metais tomam a rua. Não tem mais volta. Já é carnaval.